Fachada barroca da Igreja da abadia
Mosteiro de Alcobaça
Origem da imagem:
LITERATURA PORTUGUESA
A nossa Literatura se documenta a partir dos fins do século XII, com poesias de género lírico (cantigas de amigo e cantigas de amor) e de género satírico (cantigas de escárnio e cantigas de maldizer), escritas em galaico-português, fala então comum aos territórios da Galiza e de Portugal. Estes textos poéticos, compostos pelos trovadores ao longo de século e meio (até meados do século XIV), encontram-se reunidos em três cancioneiros. De entre os trovadores sobressai D. Dinis, autor de algumas das mais belas composições desta primeira fase da nossa literatura.
Simultaneamente, surgem as primeiras tentativas anónimas de prosa literária, constituídas por traduções, adaptações ou imitações de obras latinas de natureza religiosa e moral. Ficaram a dever-se a monges, sobretudo da Ordem de Cister, em Alcobaça, onde se encontrou a nossa mais importante biblioteca medieval. Aparecem também os primeiros ensaios da história: os cronicões (breves relatos das vidas dos nossos primeiros reis) e os Livros de Linhagem ou Nobiliários (registos genealógicos da nobreza, nos quais se contêm curiosas lendas e narrativas históricas).
Pela mesma época, começava a fazer-se sentir a influência da novelística cavaleiresca de ordem bretã (lendas do Rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda), influência já patente nalgumas composições dos cancioneiros trovadorescos e em lendas dos Nobiliários, e que dá origem à novela do Amadis de Gaula, hoje apenas conhecida numa versão castelhana do século XVI, mas de que devem ter existido versões portuguesas desde o século XIV.
No século XV, com a dinastia de Avis, acelera-se a centralização monárquica, com a consequente concentração da nobreza na corte, que passa a ser assim o principal centro de cultura.
Alguns príncipes da nova dinastia, nomeadamente D. João I, D. Duarte e o Infante D. Pedro, metem ombros à tarefa de educarem a nobreza e os seus próprios descendentes, escrevendo manuais didácticos de cunho desportivo ou doutrinário, de entre os quais sobressai o Leal Conselheiro de D. Duarte. A este culto monarca se ficou devendo a criação do cargo de cronista-mor do Reino, destinado a levar a cabo uma crónica geral que glorificasse toda a monarquia portuguesa. Investido no novo cargo , Fernão Lopes será o iniciador dessa crónica geral, em que se revelou não apenas um dos mais notáveis historiadores da Europa medieval, como também o primeiro grande prosador que surge na história da literatura portuguesa.
Quanto à poesia, ela reflecte naturalmente a vida palaciana, caracterizando-se, em grande parte, pela sua frivolidade, muito embora revele um sensível amadurecimento na arte de versificar e de desenvolver o conteúdo dos temas líricos. Por vezes, surgem até pequenas mas perfeitas obras-primas, como esta conhecida "cantiga" de João Roiz de Castelo Branco, inserta no Cancioneiro Geral:
Senhora, partem tão tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Tão tristes, tão saudosos,
tão doentes da partida,
tão cansados, tão chorosos,
da morte mais desejosos
cem mil vezes que da vida,
--partem tão tristes os tristes
tão fora de esperar bem,
que nunca tão tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.
Foi mérito de Garcia de Resende, poeta, músico, desenhador e cronista, animador dos serões da corte, ter organizado o Cancioneiro Geral, no qual reuniu cerca de um milhar de composições do tempo, muitas das quais acusam já sinais de influência renascentista, até nós chegada por via da Espanha. O próprio Garcia de Resende colaborou no Cancioneiro com algumas poesias, entre as quais "Trovas à morte de Inês de Castro", primeiro tratamento literário de um tema que viria a ter numerosos cultores, mesmo fora da literatura portuguesa.